A Aliança Navegação e Logística, empresa do grupo A.P. Moller-Maersk, iniciou em 27 de abril a operação do serviço de Armazenagem Pré-Embarque em 17 portos do Brasil. A solução permite que contêineres fiquem alocados em terminais retroportuários até o momento exato do embarque nos navios de cabotagem. O objetivo da companhia é diminuir os riscos de atrasos operacionais e reduzir custos logísticos gerados por interrupções nas cadeias de suprimentos.

Operação Estratégica em Rio Grande

A espinha dorsal dessa nova operação ganha tração com a inauguração de um depot em Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Operado diretamente pelo Grupo Maersk, o pátio inicia suas atividades com 70 mil metros quadrados na primeira fase, possuindo área disponível para expansão até 123 mil metros quadrados. A instalação conta com sistemas físicos de reaproveitamento de água da chuva, estação de tratamento de efluentes (ETE) e uma estrutura de logística reversa para insumos, a exemplo de gases refrigerantes de contêineres reefer.

A presidente da Aliança, Luiza Bublitz, defende que a antecipação do envio de cargas cria uma barreira contra problemas externos frequentes nos portos, como falta de espaço em pátios alfandegados, congestionamentos terrestres e condições climáticas adversas. Essa integração de práticas preventivas e ambientais modifica o fluxo da cabotagem, retirando a pressão das vias de acesso aos cais nos dias de pico de embarque.

Integração Aduaneira e Gestão de Dados

O sucesso da armazenagem preventiva no setor aquaviário depende da precisão no trânsito de informações fiscais e aduaneiras. Para que a carga saia do depot e acesse a área primária do porto sem retenções, a integração de dados com a Receita Federal precisa ocorrer em tempo real. A utilização de sistemas de mensageria e gestão de recintos alfandegados garante que o fluxo físico acompanhe o fluxo digital.

Terminais retroportuários e operadores logísticos utilizam ferramentas como o Data Recintos para o envio automatizado de informações exigidas pela alfândega. A plataforma processa as movimentações de entrada e saída de contêineres e sincroniza os dados no portal único do governo. Sem a adoção de tecnologias de transmissão de dados fiscais, o acúmulo de carga nos pátios de pré-embarque geraria um passivo documental incapaz de ser processado manualmente nos curtos prazos de atracação dos navios.

Do ponto de vista da engenharia de transportes, desvincular a chegada da carga da janela de atracação do navio altera a dinâmica de contratação de fretes rodoviários na ponta. O embarcador deixa de competir por caminhões nos dias de maior demanda portuária e programa as entregas no depot durante períodos de menor fluxo. O resultado prático é a queda no valor do frete terrestre e a eliminação das diárias cobradas por motoristas parados em filas nas vias de acesso aos terminais.

Evolução da Matriz Aquaviária

A criação do serviço de Armazenagem Pré-Embarque pela Aliança expõe uma transição na forma como os operadores logísticos tratam a infraestrutura nacional. Em vez de esperar soluções definitivas de acesso terrestre por parte do Estado, as empresas privadas criam áreas de escape e pulmões operacionais para absorver o impacto das ineficiências logísticas.

O Brasil possui um histórico de gargalos severos nas zonas primárias de seus terminais. No entanto, o desenvolvimento de depósitos retroportuários atrelados à integração digital mostra que a matriz aquaviária nacional encontra formas práticas de evoluir e absorver maiores volumes de carga, provando que, mesmo diante de falhas estruturais antigas, o setor marítimo consegue se adaptar e sustentar um ritmo de crescimento contínuo.